Connect Cast · Marco Ruas, Pedro Rizzo, André Pederneiras
Marco Ruas conta por que a luta contra Rickson Gracie nunca saiu do papel
Da visita de Hélio Gracie ao encontro no Boqueirão, o campeão do UFC 7 dá a sua versão da luta mais esperada que o vale-tudo brasileiro nunca viu.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 5 jun 2025 (3:01:43).
Durante anos, todo mundo que acompanha luta no Brasil fez a mesma pergunta: por que Marco Ruas e Rickson Gracie nunca se enfrentaram? Assisti à conversa do Ruas no Connect Cast, ao lado do Pedro Rizzo e do Dedé Pederneiras, e ele contou a história inteira do jeito dele. Segundo o Ruas, a luta chegou perto de acontecer mais de uma vez, teve até um patrocinador disposto a pagar, e esbarrou num valor que ninguém no Brasil tinha como bancar: um milhão de dólares.
O que mais me chamou atenção foi o tom. O Ruas fala da família Gracie sem mágoa. Ele repete várias vezes que queria a luta como profissional, dentro de um ringue, para ganhar dinheiro e sustentar as duas filhas. Briga de porta fechada, sem público e sem bolsa, nunca interessou a ele.
A visita de Hélio Gracie
A história começa com um patrocinador. O Ruas contou que o gerente da academia onde ele dava aula avisou que o pessoal de uma empresa de cartão de crédito queria bancar uma luta dele contra o Rickson, com uma boa bolsa para cada um. Ele aceitou na hora. A notícia chegou a um organizador de eventos de jiu-jitsu, que falou com Carlinhos Gracie, que falou com Hélio Gracie. E o próprio Hélio foi procurar o Ruas.
“Pô, vai ser um prazer lutar com o melhor do mundo.”
Marco Ruas, no Connect Cast · 1:48:15
Foi assim que o Ruas respondeu quando o Hélio disse que o filho dele era o melhor do mundo. A resposta do Hélio, segundo o Ruas, encerrou o assunto: o Rickson só lutava por um milhão de dólares. O Ruas levou a proposta aos donos da academia e conta que eles recuaram, sem vontade de arrumar confusão com os Gracie. Tem um detalhe curioso nessa conversa. O Ruas lembra que o Hélio disse que ele não enganava ninguém, que se apresentava como lutador de capoeira e de boxe tailandês, mas era lutador de jiu-jitsu.
Teve ainda um segundo encontro. O Ruas contou que o Hélio foi até o prédio dele, não o encontrou e deixou recado para ele passar na academia da Rua Humaitá. O Ruas foi sozinho. Lá, com o Royler dando aula, o Hélio conversou numa boa e, segundo o Ruas, propôs outra luta, dessa vez contra o Royce. De novo, nada saiu. O Ruas fez questão de dizer que o Hélio foi educado com ele o tempo todo e que, para ele, o Hélio era o mais valente de todos.
O encontro no Boqueirão e a outra versão
O episódio mais conhecido é o do Boqueirão, e aqui o Ruas contesta a versão que circula até hoje. Segundo ele, o Carlinhos Brunocilla ligou dizendo que o Rickson queria desafiá-lo e pediu que ele aparecesse às seis da tarde. O Ruas foi sem saber que o Flávio Molina tinha ido à TV Manchete dizer que havia muita gente capaz de pegar o Rickson.
Chegando lá, o Ruas diz que não viu clima de desafio. O Rickson queria saber quem era o pessoal da luta livre disposto a lutar com ele, e citaram o Denilson e o Hugo. Quando o Ruas disse que estava ali porque tinham falado que o Rickson ia desafiá-lo, a resposta, segundo ele, foi que o assunto não era com ele. O Ruas acredita que foi deixado de fora por representar o boxe tailandês. O apresentador lembrou que o Hugo conta que o Rickson chamou todo mundo para a briga. O Ruas discordou.
O que incomoda o Ruas é o que veio depois. Ele diz que viu uma entrevista em que o Rickson conta que o Ruas foi ao Boqueirão desafiá-lo e pediu um tempo para treinar. O Ruas afirma que isso nunca aconteceu e que já disse isso ao próprio Rickson. Ele também lembra que, numa época, o Rickson teria perguntado quem era o Ruas, um lutador sem nome. A resposta veio no octógono.
“Depois eu ganhei o Ultimate 7 e falei: e agora, Rickson, não posso lutar com você?”
Marco Ruas, no Connect Cast · 1:53:26
Inimigo do jiu-jitsu sem querer
Para entender por que a luta ganhou tanto peso, o Ruas voltou a 1984. Naquele ano ele fez um vale-tudo contra o Pinduca, que terminou empatado. Ele conta que aceitou porque era o sonho dele lutar, sem nada contra o jiu-jitsu, mas passou a ser tratado como inimigo. Depois disso, segundo o Ruas, ficou praticamente dez anos na geladeira, sem revanche e sem novas lutas grandes.
Os convites que apareceram quase sempre viraram polêmica. Quando o Fábio Gurgel foi à Rede Manchete dizer que estava pronto para provar a superioridade do jiu-jitsu, o Ruas aceitou o desafio. Ele conta que, dias depois, recebeu na portaria do prédio o Fux, ministro do STF, e o Fred Bomba, pedindo que ele desmentisse, porque treinava na academia do Osvaldo Alves e o caso estava criando problema para o Osvaldo. A luta não saiu: segundo o Ruas, o Fábio teve um problema nas articulações. Uma luta contra o Amaury Bitetti chegou a sair em revista e também não aconteceu.
Teve ainda a reunião do evento de luta livre contra jiu-jitsu que seria transmitido pela Globo. O Ruas lembra que alguém perguntou, no meio da conversa, se ele lutava com o Rickson Gracie. Ele disse que lutava até de graça e pediu para marcarem. Nada aconteceu, e ele preferiu cumprir o compromisso de lutar em Manaus, onde diz ter ganhado mais.
Até a estreia no UFC virou confusão. O Ruas contou que o Carlson Gracie quis entrar no corner dele, numa ligação feita pelo empresário Frederico, que era sócio do Carlson. Os alunos do Carlson reagiram, chamando o Ruas de inimigo e ameaçando abandonar o mestre. O Ruas lembra que o Vitor, na época com uns 17 anos, ficou chateado por não ter sido o escolhido para o evento.
“Não tenho nada pessoal, não tenho nada contra ele. Era uma luta profissional.”
Marco Ruas, no Connect Cast · 1:53:26
O Ruas contou que, anos depois, cruzou com o Rickson num evento na Califórnia. O Rickson foi apertar a mão dele, e ele respondeu com o mesmo respeito.
O dia em que o Ruas treinou o adversário do Rickson
A história do Rickson ainda teve um capítulo no Japão. O Ruas contou que treinou o Takada para a luta contra o Rickson no Pride. A orientação dele era simples: o Rickson não teria queda para derrubar o japonês e ia sentar no chão; o Takada devia ficar em pé. Segundo o Ruas, o Rickson realmente não derrubou e sentou para a guarda. O Takada entrou para uma chave de pé toda errada, o Rickson subiu para a montada e finalizou. O Pedro Rizzo, que estava na conversa, disse que jurava que o Rickson ia derrubar.
O legado do lutador completo
Se a luta com o Rickson ficou na imaginação, o Ruas deixou outra coisa. O Pedro Rizzo contou que começou a treinar com ele aos 15 anos, no fim dos anos 1980, numa aula de boxe tailandês que terminava com treino de chão. O Rizzo achou estranho e ouviu que lutador tem que ser completo. Foi o Ruas quem apresentou o Rizzo ao Dedé, e o Dedé diz que a mistura de modalidades que fez a Nova União começou ali, com o Ruas.
“O maior legado que eu deixo é isso aí: é o Dedé, é o Pedro.”
Marco Ruas, no Connect Cast · 1:42:31
O Rizzo ainda fez uma defesa aberta da família Gracie. Para ele, todo mundo que vive do MMA hoje, inclusive ele e o Ruas, deve isso aos Gracie, que levaram o esporte para o mundo com o UFC. Na conversa também lembraram um episódio que resume o Hélio: quando o Cacareco, da luta livre, venceu o ADCC, o Hélio disse que ele era muito bom e só não era melhor porque não era do jiu-jitsu.
“Todo mundo que vive do MMA deve à família Gracie.”
Pedro Rizzo, no Connect Cast · 1:59:15
Aos 64 anos, o Ruas diz que treina todo dia na garagem de casa, mas sem sparring, porque não consegue fazer nada de leve. Saí da conversa com a sensação de que a luta com o Rickson vai continuar sendo contada de dois jeitos. A versão do Ruas é clara: ele queria lutar, no ringue, com bolsa, e nunca teve nada contra o jiu-jitsu.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.