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Connect Cast · Royce Gracie

Royce Gracie revela por que Hélio o escolheu para lutar o primeiro UFC

No Connect Cast, Royce contou que nunca tinha feito vale-tudo, que dormia no vestiário antes das lutas e como encarou Sakuraba numa coletiva no Japão.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 9 nov 2023 (1:09:04).

Por que o Royce foi o escolhido da família Gracie para lutar o primeiro UFC? Assisti à entrevista dele no Podcast Connect Cast e a resposta foi simples: o pai confiava que ele ia obedecer. Segundo o Royce, Hélio Gracie sabia que, se mandasse o filho não bater, o filho não batia.

E tem um detalhe que surpreende. O Royce contou que chegou ao UFC sem nunca ter feito um vale-tudo de verdade. Os primos e irmãos já tinham lutado várias vezes. Ele só conhecia os desafios dentro da academia, com faixas-pretas de caratê e taekwondo que apareciam para testar o jiu-jitsu.

“Meu pai sabia que se ele falasse não bate, eu não ia bater.”

Royce Gracie, no Connect Cast · 0:03:41

Ele tinha 26 anos naquela noite. E, logo na abertura da conversa, fez questão de tirar o crédito de si mesmo: segundo ele, quem abriu a estrada foi o jiu-jitsu.

O pai mandava segurar, a mãe mandava bater

O Royce contou que os desafios na academia tinham um objetivo claro: transformar o desafiante em aluno. Por isso ninguém podia machucar muito o visitante. Era essa a disciplina que o Hélio queria levar para a televisão americana.

Só que em casa havia outra opinião. Rindo, o Royce lembrou que a mãe chegava e dizia que o pai não sabia o que estava fazendo, e que era para meter a mão na cara do adversário. Ele ouvia os dois e seguia o pai.

Sobre nervosismo, a resposta dele foi curta: zero. Ele contou que costumava dormir no vestiário antes das lutas. Quem vinha acordar era o Rickson, com um carinho na cabeça, ou o Royler, que o sacudia e fazia o aquecimento. No Japão, segundo o Royce, era ele quem tinha que acalmar a equipe na hora de subir no ringue.

De onde vinha essa tranquilidade? Da família. O Royce disse que confiava na palavra do Rickson, do Rorion, do Royler, do pai e dos primos. Se eles diziam que ia dar certo, ele entrava. Para se preparar, ele levava para o treino jogadores de futebol americano com passagem pelo wrestling, caras de mais de 100 quilos, e revezava três deles até todos cansarem. Também treinava boxe, kickboxing, caratê e taekwondo, só para entender o que o adversário ia tentar fazer.

O kimono como armadilha

Uma das partes que mais gostei foi quando perguntaram se lutar de kimono era desvantagem. O Royce virou a pergunta do avesso. Para ele, o kimono era uma armadilha: o instinto de qualquer pessoa numa briga é agarrar a roupa do outro, e quem está agarrando fica com as mãos presas.

“Kimono é uma armadilha. Se tua mão tá agarrada no meu kimono, tu não tá me batendo.”

Royce Gracie, no Connect Cast · 0:09:22

Ele lembrou também que naquela época não existia vídeo dos adversários. Segundo o Royce, a equipe recebia uma foto de revista e um cartel, e pronto. Não havia divisão de peso, limite de tempo nem luva. Hoje, na visão dele, o evento virou um show, e a pergunta sobre qual estilo de luta é o melhor já foi respondida.

Teve até uma história engraçada da luta contra Ken Shamrock no Bellator. O Royce contou que a comissão atlética exigiu, no dia da pesagem, que os dois tivessem peso parecido. O Shamrock estava com cerca de 220 libras e ele com 178. A solução foi amarrar anilhas da academia do hotel no peito, com fita, e vestir o kimono por cima. Bateu o peso, e ninguém da equipe adversária entendeu como.

Sakuraba, a coletiva e a luta de uma hora e meia

A história mais saborosa da entrevista foi a da coletiva de imprensa no Pride, antes da luta contra Kazushi Sakuraba. Segundo o Royce, os organizadores mandaram a equipe dele para o hotel e o levaram sozinho para o que seria um depoimento rápido. Lá, o Sakuraba propôs que a bolsa ficasse toda com o vencedor.

O Royce contou que percebeu a armadilha na hora: se aceitasse, estaria seguindo o adversário; se recusasse, pareceria medo. Então se levantou, empurrou a cadeira e propôs lutar ali mesmo, com a mala de dinheiro do lado de fora da sala. Segundo ele, o Sakuraba ficou sentado olhando para frente. Antes de sentar de novo, o Royce ainda avisou que era só mandar uma hora de aviso no hotel.

“Tu é homem? Eu sou homem também. Vamos fazer agora.”

Royce Gracie, no Connect Cast · 0:35:51

A luta durou seis rounds de 15 minutos. O Royce contou que no fim do sexto round sentou e disse ao pai e ao Rorion que conseguia levantar, mas não conseguia andar, por causa dos chutes que tinha levado na canela. O Rorion jogou a toalha, e o Royce repetiu a frase do irmão: mostrar valentia estava feito, continuar seria burrice.

Kimo, o suco de melancia e o UFC 3

Sobre o UFC 3, o Royce admitiu que a luta contra Kimo Leopoldo foi só coração. Nas palavras dele, deixou a técnica no vestiário. Ele descreveu o havaiano como um dos lutadores mais fortes que já enfrentou e contou que terminou a noite desidratado.

Os detalhes do que veio depois são impressionantes. Segundo o Royce, houve cerca de dez minutos entre uma luta e outra. Ele se deitou no chão antes de voltar, e o Relson perguntou se ele precisava de alguma coisa. O Royce pediu suco de melancia. Ele contou que só soube dessa conversa depois. Da noite, lembra de entrar no octógono e ver tudo escurecer, e de avisar o Rorion que não estava enxergando nada. A família o tirou da competição.

Ele também relembrou a primeira luta com Shamrock, no UFC 1, quando aplicou o mata-leão, o adversário bateu e depois tentou continuar. Segundo o Royce, o árbitro João Alberto Barreto foi parar a luta e ele pediu para deixar seguir. Aí, conta o Royce, o próprio Shamrock admitiu que tinha batido. A rivalidade, segundo ele, era real e continua até hoje.

Rickson, Hélio e o que ficou da conversa

Quando o assunto foi o Rickson, o Royce explicou que a técnica dos irmãos era a mesma. A diferença estava na forma de ver as posições e de colocar o peso. Ele comparou com a diferença entre um boxeador amador e um profissional, que sabem os mesmos golpes, mas um tem o tempo melhor.

“Ele só via diferente, sabia usar o peso dele diferente de todo mundo.”

Royce Gracie, no Connect Cast · 0:45:06

Ele disse o mesmo do pai. Segundo o Royce, o Hélio não conseguia fazer uma flexão, e o que o fazia forte era a alavanca. A velocidade vinha do tempo perfeito. Ele também contou que o Hélio dava aula das 6 da manhã até 8 ou 9 da noite, uma a cada 20 minutos, e almoçava no banheiro para ninguém incomodar.

Nas academias dele, o Royce contou que tudo é baseado em defesa pessoal, com as faixas de sempre, taparia de luva em alguns dias e treino que começa em pé. Para ele, o que tira aluno da academia é o sparring pesado e a lesão, e a competição toda semana transformou muita escola em academia de ponto. Ele até criticou a moeda usada para desempatar lutas numa regra criada por Eddie Bravo.

O que fica da entrevista é a ideia que ele repetiu várias vezes: confiança. Ele disse que não conhece ninguém na família com medo, e que aos 30 anos do primeiro UFC continua com o mesmo peso, graças à dieta Gracie. Aprendi mais sobre o Royce nesse papo do que em muita reportagem sobre o UFC 1.

“O medo é um produto da sua imaginação.”

Royce Gracie, no Connect Cast · 1:03:25

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.