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Pura Connection · Saulo Ribeiro

Saulo Ribeiro largou o direito e decidiu ser um Royler Gracie pesado

O campeão de Manaus contou por que trocou a advocacia pelo tatame, o que aprendeu com Hélio e Royler e como treina hoje, no contra-ataque.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 8 jul 2021 (1:22:11).

Saulo Ribeiro chegou ao Rio para estudar direito e, aos 22 anos, tomou a decisão da vida: largar a carreira de advogado e viver do jiu-jitsu. No Pura Connection, ele contou que até a faixa-preta era ruim de luta, porque fazia força demais, e que só mudou quando entendeu a lição de Royler Gracie, o maior estrategista que ele viu competir. A conclusão dele foi simples: ia virar um Royler pesado.

“O maior estrategista da história foi o Royler. Eu falei: então vou virar um Royler pesado.”

Saulo Ribeiro, no Pura Connection · 0:22:39

Assisti à conversa e o Saulo que aparece ali é bem diferente da imagem de lutador fechado e bravo que muita gente guardou dos campeonatos. Ele falou de respiração, de yoga, de música e de respeito. E falou muito do que aprendeu na Academia Gracie, com Royler e com o mestre Hélio.

De Manaus ao Rio, do judô ao jiu-jitsu

A primeira casa do Saulo foi o judô. Segundo ele, o pai viu cedo que o filho tinha energia demais e quis que ele aprendesse disciplina e a cair. O jiu-jitsu veio com a febre do começo dos anos 90, quando o esporte, nas palavras dele, explodiu e ganhou visibilidade.

Saulo defende que Manaus é terra de guerreiros. O calor e a umidade, diz ele, forjam uma resistência que faz qualquer treino fora de lá parecer fácil. E a cidade não tinha praia nem outro esporte forte para disputar os jovens. Ele lembrou ainda a história de Osvaldo Alves, que formou os primeiros faixas-pretas da cidade, e a rivalidade entre jiu-jitsu e luta livre, que segundo ele fez de Manaus o grande polo depois do Rio.

A mudança para o Rio teve outro motivo. Saulo contou que muitos da geração dele em Manaus engravidaram cedo, casaram ou morreram por causa das drogas, e os pais decidiram mandá-lo fazer faculdade fora. Ele cursou direito de 1992 a 1996, sem nenhuma intenção de ser profissional do jiu-jitsu. Quando se viu diante da advocacia, sentiu que aquele poder de decisão ficava longe das mãos dele. No tatame, diz, o poder era palpável. Aos 22 anos, escolheu a luta.

As lições de Hélio e Royler na Academia Gracie

O Saulo diz que foi privilegiado por viver o dia a dia da Academia Gracie, vendo Royler liderar pelo exemplo e o pai dele, Hélio, também dando aulas. Da escola Gracie ele tirou três regras: não tomar ponto, não se deixar pegar e ter um plano de estratégia. A terceira, segundo ele, veio do Royler, que era leve e mostrava que a técnica salva.

“Essa é a grande lição marcial do professor Hélio: eu não vou dizer que eu te bato, eu vou dizer que eu não apanho de você.”

Saulo Ribeiro, no Pura Connection · 0:11:04

Ele contou que o Hélio falava muito da luta sem tempo, e que muita gente se irritou com a frase de que entram dois e só sai um. Para o Saulo, o jiu-jitsu de verdade é se defender e conseguir lutar para sempre, independente da idade. Ele também lembrou que Rickson foi precursor em técnicas de movimentação e respiração, que trabalhava com Orlando Cani, e que pouca gente dava valor a isso na época.

Sobre a carreira, disse que ser campeão nunca foi a menina dos olhos. A imagem de campeão que ele tinha era a de alguém arrogante, e ele queria o combate. Sabia que havia gente mais forte e mais atleta, e apostava na própria resiliência. Ele também citou a época dos pit boys como a pior que pegou, quando o esporte ainda não era organizado e as rivalidades entre academias eram fortes.

“Eu sempre soube que eu não era o mais forte, não era o mais atleta, não era o mais treinado, mas eu era o mais resiliente.”

Saulo Ribeiro, no Pura Connection · 0:21:36

Xande, contra-ataque e a yoga aos 34 anos

Uma das histórias mais curiosas foi sobre o irmão, Xande Ribeiro. Segundo o Saulo, os dois treinam juntos há mais de 20 anos, sempre em intensidade altíssima, e nunca se machucaram. Para ele, é por isso que a técnica dos Ribeiro é do jeito que é: foi forjada dentro de casa, no amor e na dor.

Hoje, ele contou, gosta de treinar com a garotada nova e dura. Como não consegue mais trocar força e posição sem cansar rápido, passou a jogar no contra-ataque, esperando o adversário se expor. Nas últimas lutas, disse que chegou a competir sem treinar, para ver como o próprio jiu-jitsu reagia.

O Saulo contou também que aos 34 anos achou que ia parar. O corpo inteiro doía. Uma professora de yoga o colocou numa rotina e, em seis meses, segundo ele, as dores sumiram. Desde então ele defende a coluna forte e a respiração como base de tudo, e diz que o treino deve mudar a cada fase da vida, aos 50, aos 55, aos 60.

Defesa pessoal ouvindo quem foi vítima

O ponto mais sério da conversa foi a defesa pessoal para mulheres. O Saulo contou que, para montar o sistema dele, foi ouvir pessoas que sofreram violência, inclusive sexual, para entender o que sentiram. A conclusão, segundo ele, é que a técnica é detalhe. O primeiro passo é verbal e respiração, porque quem nunca viveu aquela energia trava. No caso de violência sexual, ele disse que a primeira defesa pode ser fingir rendição, para acalmar o agressor e ganhar a chance de reagir.

Ele também falou de ensino. Disse que corrige no máximo duas vezes e para antes da frustração, porque o aluno precisa sair do tatame com a sensação de êxito. E comparou culturas: o japonês aprende rápido porque aceita sem questionar, o francês quer saber o porquê de tudo.

“A diferença do remédio e do veneno é a dose.”

Saulo Ribeiro, no Pura Connection · 1:11:07

No fim, o Saulo pegou o violão e cantou. Ele contou que a mãe mandou ele fazer música como válvula de escape, porque ele era muito reservado. Para quem só conhece o Saulo dos campeonatos, essa conversa mostra o outro lado: um professor que fala mais de respeito e de adaptação do que de medalha.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.