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Connect Cast · Álvaro Romano

Aluno de Rolls Gracie, Álvaro Romano revela como preparou astros do UFC

O criador da ginástica natural conta como conheceu Rolls no Peru, estava no quarto do primeiro UFC e salvou Vitor Belfort de uma cirurgia no pescoço.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 2 set 2024 (2:28:10).

Pouca gente sabe, mas o homem que fazia Minotauro deitar no chão depois do treino para respirar, e que tirou Vitor Belfort de uma mesa de cirurgia, aprendeu jiu-jitsu com Rolls Gracie em Copacabana no fim dos anos 1970. É Álvaro Romano, criador da ginástica natural, que passou mais de duas horas contando essa história no Connect Cast.

Assisti à conversa inteira e o que mais me chamou atenção foi como a vida dele atravessa quase todos os momentos importantes do jiu-jitsu: a academia do Rolls, o desafio contra a luta livre em 1991, o primeiro UFC e os camps de alguns dos maiores nomes do MMA brasileiro. Tudo contado por quem estava lá, com a memória e as pausas de quem tem 68 anos e ainda treina todo dia.

Do surf no Peru para o tatame do Rolls

A história começa longe do tatame. Segundo o Álvaro, em 1975 ele estava numa temporada de surf em Punta Hermosa, no Peru, quando um amigo apareceu na rua com o Rolls. Os dois descobriram que tinham alugado quartos na mesma casa. Passaram quase um mês juntos, surfando todo dia, e o Rolls ensinou a ele a dieta do pai, combinando frutas e queijo no mercado.

Na despedida veio a intimação: chegando no Rio, era para ir direto treinar na academia dele. O Álvaro foi no mesmo dia que o amigo Fábio Santos, hoje faixa-coral, entre o fim de 1976 e o começo de 1977. Era a mesma época em que os dois entraram em educação física na Gama Filho.

Ele contou que, na época, quase ninguém do surf treinava. O elo com o Arpoador era Relson, que surfava e jogava futebol na praia com eles, mas dava aula longe, na Ilha do Governador. Foi o Álvaro quem começou a levar a turma do Arpoador para a academia do Rolls, amigos como o Malibu, o Zé Henrique Leão Teixeira e o Zé Beleza.

O Rolls que o Álvaro conheceu

“O Rolls, sem dúvida, foi o expoente. Todo mundo daquela geração tem ele como um ídolo.”

Álvaro Romano, no Connect Cast · 0:13:01

Pelo relato dele, o Rolls botava todo mundo para competir em tudo. Um dia o Álvaro chegou para treinar e encontrou o professor saindo sem kimono, rumo a um campeonato de luta greco-romana na Academia de Polícia. Os dois pesavam 72 kg, estavam na mesma categoria, e o Rolls ensinou as regras no carro. Havia um só collant para a equipe, que passava de um para o outro. Os dois chegaram à final, e o Rolls ainda quis lutar com o aluno. O Álvaro recusou e foi embora.

“O verdadeiro mestre quer ver a evolução do seu aluno.”

Álvaro Romano, no Connect Cast · 0:15:10

O Álvaro contou que ganhou a faixa azul em oito meses e a roxa uma semana depois de um treino especial em Itaipava, no tatame da casa de Hélio Gracie, com o mestre coordenando e a família toda presente. Ele acha que foi por volta de 1980 ou 1981. O Rolls filmou aquele treino com uma das primeiras câmeras que apareceram, como fazia na academia para os alunos assistirem no dia seguinte. Anos depois, num hotel em Londres, o Álvaro se reconheceu no vídeo que tinha ido parar na internet.

Outra lembrança mostra o fôlego do professor. Segundo o Álvaro, num mesmo dia o Rolls treinou de manhã, surfou no Arpoador, voou de asa-delta em São Conrado e voltou para dar treino à tarde.

Do desafio de 1991 ao primeiro UFC

Depois da morte do Rolls, o Álvaro seguiu estudando preparação física, coisa que praticamente não existia no jiu-jitsu. No desafio contra a luta livre de 1991, ele cuidou do físico de Fábio Gurgel e Murilo Bustamante. Foi ali, contou, que aplicou pela primeira vez o treino mental: num hotel da Barra da Tijuca, com Murilo, Marcelo Behring e Fábio, eles reproduziam o dia da luta antes de ir para o ginásio.

Ele também estava no primeiro UFC, em 1993. Lembra de estar dentro do quarto quando Rorion Gracie entrou de blazer e falou para todo mundo:

“Hoje nós vamos mudar a história do jiu-jitsu.”

Rorion Gracie, no Connect Cast · 0:21:56

Na visão do Álvaro, Royce não fez preparação física específica para aquele evento. O treino era de luta, porque a técnica era muito superior. Isso mudou rápido. Para a luta do Murilo contra o americano Tom Erikson, a equipe passou dois meses em Beverly Hills, na casa de Carlson, com umas dez pessoas dormindo no tapete da sala. Foi Renzo quem avisou que o adversário era perigoso. O Álvaro viu Erikson aquecer levantando o Coleman como se fosse uma bola de pingue-pongue. A luta foi de 30 minutos, terminou sem vencedor e ainda teve mais 10 minutos de prorrogação. Segundo ele, a preparação ajudou, mas quem segurou foi a técnica do Murilo.

Respiração, yoga e o treino que os lutadores pediam

A marca do trabalho do Álvaro é a respiração. Ele contou que Rickson aprendeu essas técnicas com Orlando Cani, e que ele mesmo foi fazer yoga na academia do Orlando depois que o Rolls morreu, numa turma de senhoras de 70 e 80 anos, sem nenhum lutador. Foi ele quem espalhou a novidade entre o pessoal do jiu-jitsu, inclusive Jacaré, com quem correu o primeiro triatlo do Rio, em 1983. Nessa prova, tonto depois da natação, ele usou a respiração em cima da bicicleta e passou uns 200 concorrentes.

Com Minotauro, o método virou rotina. O Álvaro fez um camp de cinco meses em San Diego antes da luta com Randy Couture em Portland, com quase uma hora de aquecimento por causa das dores no quadril. Como o estádio inteiro ia gritar o nome do Randy, ele simulava esse barulho no fim de cada treino. No terceiro dia pediu desculpas por deitar o ídolo no chão para respirar. A resposta veio na hora:

“Quero fazer isso todo dia. Se tu não fizer, eu não vou te contratar mais.”

Rodrigo Minotauro, no Connect Cast · 0:53:43

Com o irmão, Minotouro, a cena foi em Las Vegas. Às onze da noite ele ligou dizendo que não conseguia dormir. O Álvaro foi até o hotel, aplicou a respiração diafragmática e saiu devagar, deixando o lutador dormindo no chão. Ele diz que Demian Maia e outros atletas dos camps sabem explicar a diferença que esses detalhes fazem.

Vitor Belfort e a cirurgia que não aconteceu

A história mais forte da entrevista envolve Vitor Belfort. Segundo o Álvaro, depois da derrota para Couture, o Vitor voltou ao Brasil com uma hérnia cervical e os médicos queriam colocar uma placa de titânio no pescoço antes da luta com Wanderlei Silva. O Álvaro levou a radiografia ao fisioterapeuta Newton Petrone, o Filé, que disse que o caso não era cirúrgico. A cirurgia foi adiada, o Vitor saiu do hospital e fez de seis a sete horas de fisioterapia por dia. Desceu de peso, treinou na Pedra da Gávea e venceu rápido.

“O lutador mais habilidoso que eu vi na minha vida foi o Vitor Belfort.”

Álvaro Romano, no Connect Cast · 1:15:40

Ele trabalhou em mais duas lutas do Vitor: a vitória depois do nocaute sofrido para Anderson Silva, quando passou três meses em Las Vegas, e a finalização sobre Anthony Johnson. Contou ainda que Gilbert Burns foi atleta dele antes de entrar no UFC e estava naquele camp.

O que fica da conversa

O Álvaro repete que muitas vezes não havia dinheiro. Na temporada com a equipe do Carlson nos Estados Unidos, a única proteína do restaurante barato onde comiam era a canja, e ele acumulava as funções de preparador, fisioterapeuta e nutricionista. Mesmo assim, diz que ficou grato porque, desde 1991, os atletas o procuraram quando precisaram.

Hoje ele ensina ginástica natural pelo mundo, e conta que em quase todo seminário os alunos pedem uma aula de jiu-jitsu só porque ele foi aluno do Rolls. Ele mostra umas posições básicas, conta as histórias e ouve que aprenderam mais com elas do que com muita aula. Depois de ouvir essa conversa, dá para entender o motivo.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.